O meu ódio pelo Brasil extendia-se à seleção brasileira de futebol. Aliás, primeiro surgiu o ódio à seleção, depois veio o resto. Desde a enganação deflagrada na Copa de 2006 por Parreira, Ronaldo Gordo, Roberto Carlos, Adriano e mais alguns jogadores cuja única preocupação era se autopromover e não estavam dando a mínima para os milhões de brasileiros (contando comigo) que torciam por eles, jurei nunca mais torcer pela seleção brasileira de futebol. “Jamais serei enganado novamente.”
De lá pra cá, minha repulsa passou a contemplar todo o país, não apenas o futebol. Passei a ter vergonha de ser brasileiro. Reneguei tudo que tem relação com o Brasil. Cheguei ao extremo de pesquisar a possibilidade de renunciar à minha cidadania brasileira, depois de ir embora e me tornar cidadão de um país “minimamente decente”. Criei este blog para vociferar livremente a minha indignação.
Porém, ultimamente, duas coisas estão me fazendo pensar ao invés de vociferar. Uma delas é o fato de eu estar em breve indo para os Estados Unidos para participar de um programa de intercâmbio acadêmico por um ano. A outra coisa, por incrível que pareça, é a Copa do Mundo de 2010.
Meu plano para a Copa estava traçado: comprei uma camisa da Argentina (de rugby, não de futebol, não comprei a camisa só para isso, sou fã e jogador de rugby, mas é Argentina de qualquer jeito), e além de torcer para a seleção Argentina em seus jogos, torceria para os adversários do Brasil, fossem quem fossem. Tudo isso por protesto e birra.
No último sábado, vestindo a camisa alviceleste, assisti, torci e vibrei vendo a Argentina ganhar da Nigéria. Porém, não foi tão divertido quanto eu esperava que fosse. Eu tinha tentado combinar com alguns argentinos de ver o jogo com eles, e não deu certo. Fiquei me perguntando, maldosamente, se eles me deixaram de fora por eu não ser argentino. Depois me imaginei assistindo o jogo no meio deles. Sem entender nada do castellano porteño que eles estivessem falando, sem conhecer ninguém… Talvez tenha sido melhor assim.
Eu já estava me sentido estranho antes da Copa começar. Vou para os EUA, serei um estrangeiro, um expatriado, normal. Mas pra mim, dizer “eu sou brasileiro” era pior do que dizer “eu sou estuprador de menininhas de 10 anos de idade”. A partir do momento em que reneguei tudo o que é do Brasil, passei a ser um cidadão de lugar nenhum, e não fiquei feliz com isso.
E o desconforto culminou quando a Copa começou. A Copa é uma festa enorme. A maior festa do mundo. 32 países estão festando porque seus times estão lá jogando. E ao invés de festar e me divertir, eu resolvi protestar e fazer birra. E subitamente eu percebi o quão burro eu estou sendo. Perder de me divertir horrores com a maior festa do mundo por causa de rancor e coisas ruins que existem só na minha cabeça.
Mas é o Brasil! O país de merda, onde trabalha-se muito, ganha-se pouco e não realiza-se nada! Sim, tudo isso é verdade. Mas eu nasci aqui. Não nasci na Argentina, na França, Austrália ou Canadá. Não falo inglês, nem espanhol, francês, árabe, nada disso. Falo português. Nasci aqui, e vivi toda a minha vida aqui.
Existem coisas na vida que não podemos mudar, por mais que elas nos incomodem. Pessoas podem odiar o lugar onde moram por ser muito frio ou muito quente. Elas podem ir morar em outro lugar, aprender a conviver com o clima, ou passar o resto da vida mau-humoradas e reclamando.
Eu não posso mudar o fato de que sou brasileiro. Nenhum documento vai apagar o fato de eu ter nascido e vivido toda a minha vida no Brasil. Passar o resto da vida puto, sendo que eu posso dar risada, é pura burrice. Assim sendo, minha escolha é aprender a conviver com isso. Não vou deixar de ser crítico ferrenho dos problemas do Brasil, mas não serei mais intolerante e fanático. Vou criticar o que é ruim e elogiar o que é bom, como deve ser feito.
Amanhã eu vou com a camisa da Argentina assistir o jogo, falei que ia e vou, e um amigo vai junto comigo. Mas o ódio não vai comigo. Se o Brasil tomar algum gol, vou comemorar e tirar um sarrinho dos meus amigos que estarão comigo. Mas quando Brasil marcar, não vou ficar puto. Vou festar, como todo mundo. Afinal, viver é exatamente isso, tentar rir o máximo possível e ficar puto/triste o mínimo possível.
E sobre a minha presença no exterior, não vou ter vergonha alguma de falar que sou brasileiro. Ninguém é melhor do que ninguém por ter nascido na Austrália, no Zimbábue, na Índia ou em Liechtenstein. Os problemas do Brasil não são minha culpa. Eu não faço parte dos políticos corruptos que querem que tudo se dane. Eu sou a outra parte, a parte que quer ver tudo muito bom, pra todo mundo! Então por que deveria me envergonhar?
Bom, acho que é isso. Despeço-me, pois duvido que vá escrever aqui de novo algum dia. Esse blog não serve mais. Talvez algum dia eu inicie outro, de crítica construtiva e imparcial, não de fanatismo e ódio.
Saudações a todos!
Rafael, um brasileiro
Escrito por Chefe